Manaus, AM – Enquanto os decibéis dos shows nacionais do “Sou Manaus Passo a Paço” ecoam pelo centro histórico, uma pergunta incômoda reverbera pelos bairros da capital amazonense: para quem é, de fato, o espetáculo? Com um custo que ultrapassa a casa dos milhões de reais, o megaevento promovido pela Prefeitura de Manaus se tornou o exemplo mais recente e gritante da antiga política do “pão e circo”, uma estratégia que, em pleno século XXI, ainda encontra terreno fértil para desviar a atenção dos cidadãos dos problemas reais e urgentes que assolam a cidade.

A fórmula é conhecida: ofereça entretenimento em grande escala, de preferência gratuito e com artistas de renome, e as massas se esquecerão, ao menos momentaneamente, da dura realidade que as cerca. Em Manaus, essa realidade tem nome, endereço e, infelizmente, vítimas. Como Giovana Ribeiro, uma jovem grávida de sete meses que teve sua vida e a de sua filha, Maria Carolina, ceifadas em junho deste ano por um buraco em uma das principais avenidas da cidade. Uma fatalidade que expõe a cruel inversão de prioridades da gestão municipal.

Enquanto a prefeitura se vangloria de realizar o “maior evento de artes integradas do Brasil”, com cachês milionários para artistas nacionais, a infraestrutura de Manaus agoniza. Ruas esburacadas, transporte público deficiente, saúde precária e um saneamento básico que ainda é um sonho distante para muitos são apenas alguns dos problemas que não sobem aos palcos iluminados do “Sou Manaus Passo a Paço”.

A grande questão que paira sobre o evento, além de seus custos exorbitantes, é a nebulosa relação entre o poder público e os patrocinadores. Uma análise mais atenta revela que parte significativa do financiamento do “Sou Manaus Passo a Paço” vem de empresas que, por coincidência ou não, possuem contratos milionários com a própria Prefeitura de Manaus. Entre os patrocinadores de edições recentes e da atual, encontramos concessionárias de serviços públicos e empresas do setor de saúde, por exemplo. Uma teia de interesses que levanta suspeitas sobre a verdadeira natureza desse “apoio cultural” e a quem ele realmente beneficia.

É inegável o direito da população ao lazer e à cultura. No entanto, quando o entretenimento se torna uma cortina de fumaça para a má gestão e a negligência com o essencial, ele perde seu propósito e se transforma em uma ferramenta de manipulação. O “pão e circo” manauara, regado a muito dinheiro público, direto e indireto, serve para criar uma falsa sensação de bem-estar e progresso, enquanto as verdadeiras necessidades da população são relegadas a um segundo plano.

As críticas ao “Sou Manaus Passo a Paço” não se limitam apenas aos gastos. Artistas locais denunciam a falta de espaço e a disparidade de tratamento em comparação com as atrações nacionais. A falta de transparência nos contratos e nos valores investidos também é um ponto recorrente de questionamento por parte da sociedade civil e de órgãos de controle.

A morte de Giovana e de sua filha não foi um acidente isolado, mas sim um sintoma de uma cidade que investe mais em sua imagem festiva do que na segurança e na qualidade de vida de seus cidadãos. Quantas outras tragédias precisarão acontecer para que a Prefeitura de Manaus entenda que tapar buracos, garantir um transporte digno e oferecer um sistema de saúde funcional são mais urgentes e importantes do que qualquer show pirotécnico?

O verdadeiro espetáculo que a população de Manaus anseia não é o de um palco suntuoso, mas o de uma cidade que funciona, que cuida de suas ruas, de seus cidadãos e que aplica seus recursos com responsabilidade e transparência. Até que isso aconteça, o “Sou Manaus Passo a Paço continuará a ser um circo de milhões montado sobre as fundações frágeis de uma cidade que clama por pão, mas também por dignidade, respeito e, acima de tudo, por uma gestão que governe para todos, e não apenas para a plateia de um evento.

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